Leituras Instrutivas

É impressionante como o estudo de novas teorias amplia nossos conceitos e nossa maneira de ver o mundo. Quando se fala de leitura, então, isso toma grandes proporções. Até os anos 60 do século passado, a leitura era ensinada de maneira totalmente decodificadora e mecanizada, apesar de Bakhtin, grande filósofo e pensador russo, além de pesquisador da linguagem humana, ter apresentado relevantes conceitos sobre esse assunto já na década de 1920.
Ele escreveu sobre os gêneros do discurso, ou gêneros discursivos, que estão presentes em nossa vida desde que nascemos. Segundo o autor, apesar de os utilizarmos normalmente em nossa comunicação e nas diferentes esferas sociais das quais participamos, não temos consciência da sua existência e nem refletimos sobre seu uso.
Sua brilhante teoria só começou a tomar corpo a partir de meados de 1960 na Europa e, no Brasil, passou a ser estudada e pesquisada a partir de 1990, quando os cursos de pós-graduação começaram a se aprofundar mais no assunto e publicar artigos e livros sobre essa interessante visão de ler e produzir discursos escritos e orais. Também os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), que norteiam os cursos Fundamental e Médio em âmbito nacional, baseiam o estudo da língua portuguesa nos gêneros do discurso.
Isso revolucionou a maneira de ensinar a nossa língua, facilitando a produção de texto, uma vez que cada gênero tem suas particularidades, suas características próprias, o que possibilita  ao locutor refletir, antes de iniciar um texto oral ou escrito, sobre o seu público-alvo e, com isso, pensar qual linguagem usar, vocabulário específico, etc. A escolha do gênero dependerá do objetivo da comunicação que, por sua vez, determinará se a linguagem usada será a formal ou informal.
Tudo isso elimina, de certa forma, os conceitos de certo ou errado se nos posicionarmos frente aos conceitos de linguagem padrão ou variante linguística, o que não significa que tudo é aceitável dentro das variantes; mais uma vez a escolha do gênero será determinante.
A título de exemplo, podemos citar a propaganda, que é um gênero usado amplamente em todas as mídias: impressas, eletrônicas e orais. O que vai ser decisivo na escolha dessa mídia será o público ao qual ela se destina: é um público que ouve muito rádio, ou assiste mais à TV? Pertence às classes A, B, C ou D? Lê muito? Que espécie de revista? Possui Internet? Enfim, as perguntas a serem feitas são várias. Dependendo das respostas, ter-se-á o caminho exato a ser tomado.
Dessa forma, todo aquele que “fugir” desse caminho, estará fadado a não atingir a sua meta. Por quê?  A resposta para quem planeja o seu trabalho com base no gênero em questão é óbvia: se a propaganda é para lançar uma nova marca de sabão no mercado, não se poderá pensar em usar, por exemplo, uma mídia impressa destinada a executivos, ou uma mídia eletrônica, visando um programa para pré-adolescentes. Seguindo esse raciocínio, a hipótese de alcançar a meta desejada pelo cliente será muito mais provável.
Esse é apenas um exemplo entre os muitíssimos gêneros, pois, conforme Bakhtin, o número deles é ilimitado. Sempre haverá gêneros que desaparecerão ou tendem a desaparecer, como o telégrafo, a carta pessoal, correspondência por fax, entre outros, e aqueles que surgirão ou surgiram recentemente, como o e-mail, facebook, whatsapp, etc.
Seguindo esse raciocínio, vamos abordar a internet, que é considerada um tipo de mídia, suporte ou veículo para diversas publicações, e refletir sobre tudo o que circula por ela. Há coisas incríveis, mas também outras terríveis, e não me refiro somente ao conteúdo, mas também à estrutura linguística (coesão e coerência – assunto já abordado por mim no texto “A visão do texto como iceberg” – 2009).
Ao procurarmos algum artigo para leitura ou pesquisa, é necessário atentar para o site no qual ele foi publicado, se a fonte é fidedigna, outros artigos que circulam por ele, se o texto possui coesão, coerência, se não apresenta erros gritantes de ortografia ou concordância, se o conteúdo condiz com o título, em resumo, todas as características que nos levam à hipótese de que teremos uma boa e proveitosa leitura.
Volto, portanto, a enfatizar a importância de conhecer as características do gênero sobre o qual quero informar algo, pensando inclusive em quem poderá ser meu interlocutor. Enfatizo aqui, também, a importância da revisão do texto por alguém capacitado na área linguística, pois o material pode até ser muito interessante, mas se não passar pela barreira da falta de coesão, tornará mais difícil para o leitor a tarefa de  se aventurar pela parte submersa do iceberg.        





Vera Lúcia Tosetto Zanelato  

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